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Título: CORPOS E MOBÍLIAS
Autora: Júlia Azzi

ISBN : 978-65-88865-30-9
Formato: 14 x 21 cm.
Páginas: 128
Gênero: Poesia
Publicação: Class, 2021

O número impressiona, ainda mais para um livro de estreia: 82 poemas. Mas não se trata, evidentemente, de sublinhar o valor de uma obra poética por seus números, e sim por suas palavras. O que elas dizem e, sobretudo, o modo como dizem o que dizem. E é aí que Júlia Azzi, com seu Corpos e mobílias, mostra a que veio.
Um desconforto, seja ele individual, familiar, existencial ou social, atravessa esse conjunto de poemas sem, no entanto, configurar-se propriamente como seu tema: não é um falar sobre o desconforto, mas a partir dele. Esse desconforto, para dizer de outra maneira, é um traço da personalidade que (se) enuncia, a si mesma e ao mundo, ao longo das quatro seções do livro: um desconforto que não descamba para a melancolia, nem para a revolta, nem para a ironia – sabendo se valer delas, quando necessário; que se resolve pela inteligência de um olhar que observa “os olhos murchos/ do chute/ na calçada” e os absorve em seu “corpo cheio de becos”; que se indaga permanentemente, “como quem cultiva certezas/ matemáticas sobre as/ dores”, com a consciência de que “todo adolescente/ no fundo de algum lugar/ fala em alma”.
A dicção do desconforto, na poesia de Júlia Azzi, é embalada por uma voz esquiva, que se sabe “confinada/ a espaços cada vez menores/ habitando um cabelo/ um ponto da pele/ de meu corpo em garras”, e reforçada pelos cortes calculados dos versos – abruptos mas sem alarde, sintáticos mas sem condescendência. Uma voz e uma dicção, enfim, capazes de interiorização sem derramamento: “não aprendi a dobrar o corpo com cuidado/ amasso-o/ até caber no próprio embrulho/ como um nó”.
Em outro plano, a recorrência do corpo e do espaço da casa, presentes desde o título do livro, é contrabalançada pelos elementos do universo orgânico exterior – terra, insetos, plantas, frutas, bichos –, numa mescla anunciada, harmônica e antiteticamente, pelos títulos das seções: “espectros e cascas”, “garras e dentes”, “pele, pulsos e pés” e “pelos e folhas”. Animal e social, transcendente e biológico, matemático e instintivo, eis o humano.
Nos poemas de Corpos e mobílias, há quase sempre um cotidiano entranhado e estranhado: “a torneira perdida/ na força do líquido/ exalta um triunfo na pia”. Por essa dupla valência, são poemas que pedem para ser lidos com vagar, com silêncios entre um e outro, avançando como quem teme encontrar aquilo que quer, mas quer encontrar aquilo que teme: “alguém que gaste as solas dos sapatos/ atravessando-o de um lado a outro/ o perverte com sua gastura interna:/ encontrar nele uso (mesmo o desespero)/ é inutilizá-lo, tornando-o mais cheio”.

Diego Grando
fevereiro/2021

Sobre a autora:
Júlia Azzi é poeta e professora de língua portuguesa e literatura. Nasceu em 1995 em Porto Alegre, mas sempre viveu em São Jerônimo; e há alguns anos mora no trânsito entre as duas cidades. É graduada em letras e mestre em estudos literários aplicados pela UFRGS.