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Título: HELIOTRÓPICO
Autor: Gilberto Caldat

ISBN 978-65-88865-60-6

Dimensões: 14 x 21 cm
Páginas: 100
Gênero: Poesia
Publicação: Class, 2021
 

O livro que a leitora ou o leitor tem em suas mãos quiçá lhe pareça familiar. Ao folheá-lo, pensará reconhecer nele vozes familiares, de Borges a Platão, de Calvino a Baudelaire. Se permanecer nesta falsa impressão, terá fracassado em sua tarefa principal, que é de abrir-se para cada livro e deixar que lhe fale com sua voz absolutamente única. Atrás das alusões, nem sempre tão veladas, e das evidentes referências literárias e culturais, encontra-se uma mensagem insólita e original. Os temas são os que são eternos em toda criação literária (o tempo, o mundo, a morte, o que significa ser humano...). Mas, a uma segunda, mais atenta leitura, produzem em quem lê uma leve inquietação e certo estranhamento, como se ouvisse uma voz conhecida e não conseguisse reconhecê-la, como se enxergasse um rosto familiar e o encontrasse diverso. Ao “ah, isso eu (re)conheço” segue-se um incerto “talvez eu me engane”, que é o prelúdio da definitiva abertura necessária para entender (ou quiçá intuir, imaginar) o que Gilberto Caldat quer (quer?) nos (nos?) dizer (dizer?).
É um convite a uma viagem que se desenvolve em muitos níveis e que permite a quem lê demorar nos lugares que mais lhe agradem, ou até perder-se numa página, numa sentença, da qual já não conseguirá libertar-se enquanto continue lendo. Viagem sem início e sem fim, pois há inúmeros inícios e inúmeros fins; viagem que se estende no espaço e no tempo, mas também se dá num lugar que se situa além de ou é anterior a espaço e tempo. Viagem na condição humana a partir de um momento e de um lugar nos quais ainda não existe o humano, mas se adivinham somente os germes daquilo que se tornará o humano – e com o termo não estou me referindo tão somente ao ser humano, mas a tudo aquilo que o rodeia e constitui o contexto no qual existe, sua existência, seu universo. Deuses e diabos povoam este mundo pré-humano, no qual os milênios são medidos por um humaníssimo relógio, ainda que muito especial, e no qual “coisas” como o riso, o amor, a morte e o perdão são o resultado de um jogo de dados.
O que encontramos nestas páginas é a linguagem dos mitos e dos sonhos, anelando realizar a tarefa talvez impossível de revelar coisas arcaicas e misteriosas, que se deram antes que existissem o ser humano e a própria linguagem; coisas das quais ninguém foi testemunha senão o próprio poeta, que reclama para si o papel de representante e porta-voz do gênero inteiro, numa tentativa hercúlea e sisífea de contar experiências que foram feitas antes que um sujeito possível pudesse tê-las. Rememorando o que houve antes da memória, descrevendo o indescritível, o autor leva os leitores para a dimensão do eterno presente e do em-parte-alguma que caracteriza todo poema mitológico. Sempre, contudo, o mito, ao falar de outro tempo e lugar, fala de nós aqui e agora para nós aqui e agora.
São mundos possíveis, habitados por outros seres – os seres que poderíamos ter sido em outra história, em outro universo, em outra criação. São vidas marcadas pelo amor, pela morte, pelo riso, pela tristeza. Mas nas realidades nas quais tais vidas são vividas e que são tão diferentes da nossa, mesmo quando nelas encontramos nomes conhecidos, estas palavras possuem outro sentido e indicam coisas que só podemos vagamente imaginar, fugazmente intuir, nunca, porém, plenamente compreender. É por isso que a linguagem do autor se faz, inevitavelmente, alusiva e mis9
teriosa. Evoca e não reproduz. Esboça e não descreve. O sentido do que é dito está nas entrelinhas, naquilo que não é e não pode ser dito. Está no tom da narração, não em seu conteúdo. Está na nostalgia pelas possibilidades que poderiam ter sido e não foram, pelos universos semelhantes, quase iguais ao nosso e que, contudo, não são o nosso, pelas pessoas que nós poderíamos nos ter tornado e que não fomos, não somos e não seremos. As possibilidades que nos são preclusas para sempre são reveladoras, pois nos falam daquilo que somos e de quem somos, numa definição em negativo – poesia em modus tollens, caleidoscópio de imagens que giram incessantemente recompondo-se em sempre novas constelações, em sempre novas composições ad infinitum...
Só a poesia pode dar vida a tudo isso, e Gilberto Caldat é poeta ainda que escreva em prosa. Ora, sabe-se bem que cada poeta é um demiurgo; mas, neste caso, a atividade demiúrgica se tornou literal, criando incessantemente sempre novos mundos, pelos quais o autor nos conduz, incansável e paciente, como Virgílio com Dante (outra voz que ressoa indistinta em nosso ouvido durante a leitura), indicando-nos o que nos parece tão estranho e tão alheio e ensinando-nos, ao mesmo tempo, a ver nele um espelho no qual enxergamos nosso semblante. E cada vez nos assustamos.


Alessandro Pinzani

Sobre o autor:
Gilberto Caldat nasceu e foi criado na pequena cidade de Laranjeiras do Sul, no interior do Paraná. Mudou-se aos 17 anos para a cidade de Florianópolis, onde estudou Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina e onde começou também a trilhar o caminho das letras a partir da composição de algumas canções que sugeriam ao mesmo tempo solidão e parceria. Depois de 8 anos, voltou ao Paraná, para residir em Curitiba, onde se dedicou com maior atenção aos escritos literários e, enfim, lançou seu primeiro livro intitulado "Os amores móveis", pela editora Multifoco, no começo do ano de 2017. Hoje, ainda morando em Curitiba, volta aos estudos na área de Filosofia, sendo aluno de doutorado da Universidade Federal do Paraná, com um projeto de tese que se agarra também ao mesma tema do seu segundo trabalho literário: as viagens e seus múltiplos sentidos!