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R$ 48,00
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Título:
PEQUENO INVENTÁRIO DAS
AUSÊNCIAS
Aurora: Marli Silveira
Formato: 13 x 20 cm.
Páginas: 118 Gênero: Poesia Publicação: Bestiário,
2025
ISBN 978-65-6056-144-1
Dentro de uma tradição lírica
que remonta ao Barroco, mas que se tornaria a pedra de toque
das poéticas da Modernidade, os versos de Marli Silveira
assentam-se em uma tensão complexa e irresolúvel entre duas
percepções da existência. De um lado, a inquietante
consciência da finitude e da gratuidade da vida humana. De
outro, a busca de um sentido que transcenda a essa
precariedade e construa a possibilidade de alguma redenção,
seja terrena, seja celestial.
Os barrocos vivenciaram este dilema entre o carpe diem e a
ânsia pelo Absoluto e encontraram sua saída na
religiosidade, ainda que eventualmente manchada pela
nostalgia dos gozos terrenos. Na Modernidade, o consolo
divino esfumou-se e os escritores (e os pensadores) tentaram
substituí-lo pela criação de sociedades perfeitas no campo
político, ou pela invenção de paraísos artificiais, ou mesmo
procurando a remissão do grande vazio no amor, no sexo, na
Filosofia, na aventura sem limites, ou em qualquer causa que
impregnasse sua experiência vital de algum significado
compensatório.
A poesia de Marli Silveira em Pequeno inventário das
ausências situa-se neste campo onde todas as certezas
viraram escombros e todo o sentido do real está – ou parece
estar – devastado, sem que esta sensação de náusea que
acomete o eu-lírico impeça o seu afã de encontrar, mesmo que
provisoriamente, uma alternativa que justifique o seu
próprio destino e a sua escritura.
O breve e denso poema Costura ilustra tal duplicidade e a
tentativa de composição de uma síntese (talvez frágil,
talvez impossível). No primeiro verso, emerge a contradição:
“Há duas mãos que me escrevem...”. A “primeira mão dobra-se
no abismo da impermanência”, isto é, no registro da
fugacidade a que tudo está condenado. Mas a outra mão não se
recolhe. Ao contrário, resiste. Vai “tateando o mundo”, na
busca da adequação do ser ao “ponteiro das horas”.
O jogo antitético entre os elementos corrosivos da
existência e aqueles que poderiam representar a sua negação
indica nos textos da poeta – pelo menos aparentemente – o
peso esmagador e vitorioso dos sentimentos de perda e
solidão, traduzidos sobremodo pelo uso reiterado da palavra
“ausência”. Há uma espécie de vácuo avassalador na maioria
dos poemas. “Ausência” não se resume apenas a aquilo que um
dia foi e não é mais, tampouco ao que acontece agora e logo
de dissipará. É também uma antecipação do que virá, pois
todas as epifanias e sensações que poderiam revelar um
caminho, estarão irremediavelmente contaminadas pela
natureza mortal a que estamos submetidos.
Porém neste universo movediço e indiferente ao drama humano,
Marli Silveira, mesmo acossada pela “boca insaciável das
horas”, pelas “incontornáveis finitudes” e pelos
“precipícios da existência”, vale-se de um “artifício de
sobrevida”. Isto é, vale-se da suprema forma de resistência
e de protesto que os seres conceberam para combater o seu
destino trágico: a criação literária.
Sob este ângulo, Pequeno inventário das ausências, além das
reverberações luminosas de sua linguagem, é um grito de
perplexidade, de angústia e de dor. Mas é, igualmente, a
afirmação do poder que certos indivíduos possuem de intuir,
compreender e fixar a miséria de nossa condição e assim, de
forma paradoxal, derrotar o tempo e sua força aniquiladora.
Sergius Gonzaga
Porto Alegre, verão de 2025
Sobre a autora:
Marli Silveira (Marli Teresinha Silva da Silveira), é
poeta, escritora, ensaísta, pesquisadora e filósofa. Possui
Estágio Pós-doutoral no Programa de Pós-graduação em Letras
da Universidade de Santa Cruz do Sul/UNISC; Estágio
Pós-doutoral no PPG em Filosofia da PUC-RS. Ocupa a Cadeira
13 da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), a Cadeira 12
da Academia Literária Femi-nina do Rio Grande do Sul, é a
atual presidente da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.
Cidadã Honorária de Santa Cruz do Sul (2024); Escritora
Homenageada da 35ª Feira do Livro e 1ª Festa Literária
Internacional de Santa Cruz do Sul (2024 e 2025); Medalha
Mérito Farroupilhas 2025 (AL/RS). Seu nome consta no
Dicionário de Mulheres, organizado pela pesquisadora
Hilda Agnes Hübner Flores, publicado pela Editora Mulheres
(2011). Em 2024, o escritor Eduardo Jablonski lançou um
livro de crítica literária sobre parte da obra de Marli
Silveira: Marli Silveira – um ser humano para o outro
(Bestiário, 2024). Coordenação Editorial e Organização do
Livro dos Anais do 4º Congresso das Academias de Letras do
Estado do RS (Gazeta, 2024). Coordenação Editorial e
Organização do Livro Um rio de memórias, do I
Seminário Literatura e (seus) temas contemporâneos
(Gazeta/Bestiário 2025). Com cerca de 40 títulos publicados,
é autora premiada e traduzida em outros países. |